HISTÓRIAS | Carlos Paredes: a voz de uma guitarra

14 fev

Edição impressa | Passou parte da sua vida curvado sobre doze cordas de aço, dono de um talento que desconhecia e o qual se sentia incapaz de transmitir. Carlos Paredes era o funcionário público que tocava guitarra nas horas vagas e que, aos domingos, almoçava no Galetto, à noite, ouvia música no Frágil e, em digressão, pedia três Big Mac. O génio da guitarra portuguesa considerava que «geniais são as pessoas que respeitamos profundamente».

Texto originalmente publicado no número 18 (outono de 2005) da Espiral do Tempo.

por Vanda Jorge, fotografia de Ana Baião e Serge Cohen

Minutos antes de iniciar um concerto, Carlos Paredes dizia «vamos tocar bem para não desapontar estes amigos». Os amigos eram o público que fixava aquele homem alto, de um metro e oitenta e ar desajeitado. No palco, nem chegava a ajeitar a cadeira. De sorriso tímido, aconchegava a guitarra a si, o corpo debruçava-se sobre o instrumento e, de imediato, atacava as cordas. Os gestos eram inigualáveis: a firmeza com que a mão esquerda percorria o braço da guitarra e com que a mão direita puxava as cordas é única. A pose, essa, era inconfundivelmente a de um génio. Lançava-se numa espécie de introspecção, dedilhava as cordas já no ‘mundo de Paredes’, de onde só sairia quando soasse o último acorde. Consigo em palco, tudo era intuitivo. «Digo a brincar que os deuses se reuniram para fazer um homem que tocasse um instrumento. Deram-lhe o corpo, as mãos grandes, as unhas fortíssimas, a capacidade para compor e só depois fizeram um instrumento à sua medida», é desta forma que Luísa Amaro, mulher e a última acompanhante de viola clássica de Paredes, começa por explicar a ligação de Carlos Paredes à guitarra.

«Retratos do Artista quando jovem» junto a sua mãe, Maria Alice Candeias e a seu pai, Artur Paredes.

Filho de Artur Paredes e neto de Gonçalo Paredes, dois grandes executantes da guitarra no fado de Coimbra, aos quatro anos Carlos aprendia a técnica ao lado do pai. «Eu era terrivelmente mau acompanhador, tinha tendência para querer impor a minha própria maneira de sentir a música. Ele dizia-me: ‘estás a tolher-me!’. Irritava-se comigo, ralhava-me e, às vezes, zangávamo-nos», recordava o músico, em 1981, no Jornal de Letras. Do pai herdou a genialidade na execução; da mãe, Maria Alice Candeias, a sensibilidade e «um lado feminino que se revela na doçura com que interpreta certas músicas», acrescenta Luísa. O dom da composição nasceu com ele, os ambientes que frequentou deram-lhe o gosto apurado, as pessoas que conheceu a inspiração. Até as unhas, que levaram a Rainha Isabel II a exclamar «Such incredible nails!», fizeram de Paredes um músico impar. Os concertos eram de «sangue, suor e lágrimas», conta a violista que aprendeu a pisar um palco ao seu lado. «Ele não entrava de ânimo leve, transmitia confiança e eu sabia que ia correr bem. Ver aquela pessoa que toca admiravelmente a não se deslumbrar é uma grande lição de vida. No final, perguntava-me ‘Achas que correu bem?’ Cada vez que saía de um palco voltava ao início, como se fosse a primeira vez».

Os concertos de Paredes
Carlos Paredes tinha o dom de agarrar o público estivesse no Olympia, em Paris, ou numa sociedade recreativa sem condições acústicas. «Vi alentejanos a chorarem com a música dele», uma imagem gravada na memória de José Jorge Letria. Tocava com a mesma «humildade e seriedade» para vinte ou para cinco mil pessoas. As plateias respeitavam-no como um génio: «havia uma ligação de afecto que encontro também na Amália; as pessoas estavam em comunhão com ele, o que leva as coisas para uma outra dimensão», explica Luísa. Apesar das «enormes dificuldades económicas», gostava demasiado da música para viver à custa dela, actuava por quantias irrisórias e era famoso pelas ‘borlas’.

Carlos Paredes, que nunca deixou de ser humilde, em concerto acompanhado por Fernando Alvim.

Com a guitarra, percorreu os cinco continentes, e em todas as paragens fez amigos. Enviou os seus discos a Isabel II, acompanhou Ramalho Eanes à China e, com o Rei Balduíno da Bélgica, perdeu-se à conversa. Quando foi surpreendido pela doença, o seu nome ainda não era reconhecido internacionalmente, mas já tinha conquistado o respeito nos meios intelectuais e nos festivais onde actuava. «Vi músicos como o Charlie Haden completamente deslumbrados. Numa digressão à Finlândia, praticamente na zona polar, na Lapónia, vi-o levar mais de mil pessoas ao rubro. São coisas mágicas que não se conseguem explicar», recorda Letria, que, tal como Paredes, era um dos cantores da resistência. Juntos correram a Europa e parte do mundo comunista da altura. Em 1974, meses depois da revolução, actuaram em Bolonha. «Nunca vi um êxito assim. Quatro mil pessoas aplaudiram-no de pé, durante dez minutos. Foi absolutamente esmagador! E ele, com aquela humildade, sempre curvado e atrapalhado, estava fascinado e, ao mesmo tempo, desnorteado», recorda o vice-presidente da SPA. O tema «A Dança» é o som da guitarra que se ouve na digressão mundial de Paul McCartney. No final de um espectáculo, Pier Paolo Pasolini convida-o a compor a música do seu próximo filme. «Paredes conhecia a sua obra cinematográfica, mas disse-me que não era ele a que Pasolini se referia. Disse-me: ‘Eu não tenho importância para ele falar comigo, ou então confundiu-me com outra pessoa’», recorda Letria. Carlos Paredes nunca teve noção da sua própria dimensão.

Encontros e desencontros

Carlos Paredes esteve sempre no palco «como um professor exemplar de poesia e de música», palavras de Pedro Ayres de Magalhães. Foi também em palco que ficaram registados momentos memoráveis. A genialidade da composição e da interpretação da guitarra chegou ao cinema, ao teatro e à dança. Nos anos 80, em Maputo, Paredes tocava e Malangatana pintava em palco; ao lado de António Vitorino d’Almeida improvisa Invenções Livres. Na década de 90, Dialogues juntam Charlie Walls ao contrabaixista americano Charlie Haden. Diz-se que eram discos mais de desencontros do que de encontros. Em 91, um ano antes de lhe ser diagnosticada uma Mielopatia, Paredes era o convidado especial no concerto dos Madredeus, no Coliseu de Lisboa. «Apresentámos todas as nossas canções, para que ele escolhesse a que gostava mais. Ouviu-nos e cumprimentou-nos pelo nosso trabalho; escolheu uma canção que se chamava «O Navio», sobre a qual improvisaria. Eu pedi-lhe que tocasse a solo o tema «Mudar de Vida», e ele pediu-nos que a Teresa cantasse o seu «Canto de Embalar», a canção que a sua mãe lhe tocava quando era pequenino. Fiquei aflito, mas escrevi uma letra para aquela melodia e para a Teresa, que ele, por assim dizer, ‘aprovou’. Estes momentos, na nossa pequena sala de ensaios no Chapitô, em que o grande mestre se sentava a ouvir todas as nossas canções, e em que as tocámos para ele como quem desfolha as páginas de uma sebenta, são a minha grande recordação e a minha sentida saudade», conta o músico. «A presença dele no Coliseu com os Madredeus encheu o público ali presente de alegria e foi a maior honra que poderíamos ter vivido naquela época». Momentos únicos marcados pela simbologia de um encontro que revelou «a esperança e o culto da expressão portuguesa». «Não comparo o Carlos Paredes a ninguém. Ninguém tocou como ele a Guitarra Portuguesa, ninguém escreveu como ele, nem ninguém se dedicou como ele a uma carreira de músico solista, preocupado com a emancipação e com o progresso do pensamento e dos hábitos do seu povo e da sua época. Carlos Paredes é um exemplo de trabalho e de modéstia, de dedicação ao seu país, à história do seu povo e à sua época, que sofreu heroicamente a solidão do seu percurso único e vanguardista. Deixou-nos as gravações das suas composições para hoje usufruirmos do seu generoso génio e gozarmos a saudade da sua presença», conclui o músico dos Madredeus.

Carlos Paredes ao leme de um cacilheiro. Fotografia de Eduardo Gageiro.

Quando Paredes conhece Wellenkamp
Paredes teve sempre o seu próprio tempo. Para o acompanhar, bastava entrar nos fluxos marcados pela respiração, pela pulsação e pelos seus impulsos. Acelerava, retardava, os sons pareciam livres num espaço flexível. Um tempo que não existe, mas que é rigorosamente cumprido. De resto, Paredes nunca saía do tempo. Quando Carlos Paredes conhece Vasco Wellenkamp, o segredo foi o improviso. Em 82, o bailarino do Ballet Gulbenkian coreografava Danças Para uma Guitarra. Pela primeira vez, uma guitarra subia ao palco ao lado de bailarinos. Na dança, tal como na música, existe um tempo rigoroso, e «os músicos acompanham os bailarinos. Com Paredes, era impossível. Ficava fechado na sua guitarra e era conforme sentia. Era um grande músico, só que livre nos impulsos, como no jazz. Nós adaptámo-nos e criou-se um grande sentido de improvisação que preenchia o tempo dele. Era o preço que pagávamos para ter um artista como ele connosco ao vivo», descreve o coreógrafo. O mestre apaixonou-se pela dança; olhava fascinado para a disciplina dos bailarinos, «que respiram a música que se toca. Às vezes penso neles como instrumentos de alta precisão», disse um dia a Alice Viera. Foi um espectáculo «comovente», que apresentou a música portuguesa na sua mais verdadeira expressão. «As reacções foram fantásticas. Quando o bailado acabou, o público levantou-se em apoteose aos gritos. Foi um dos grandes momentos do Ballet Gulbenkian, uma coisa muito sincera e espontânea. Paredes deixa as saudades de um génio que não tem repetição», confessa Wellenkamp.

Carlos Paredes, um homem bom

Carlos Paredes no seu emprego no Hospital de S. José.

Antes de pisar o palco, verificava se todos os ‘bonequinhos’ que lhe ofereceram ao longo da vida estavam guardados no sítio deles. Era o único ritual que se lhe conhecia. Apesar da força do seu nome, Paredes nunca foi um homem de excentricidades. Ficou conhecido através da sua música, mas nunca viveu dela. Até à idade de reforma, arquivou radiografias no Hospital de São José. Um dia perguntaram-lhe a profissão, Luísa Amaro respondeu «músico», e ele: «funcionário público». Homem de convicções e militante do PCP desde os anos 50, é preso pela PIDE. Na prisão, os camaradas julgam que perdeu o juízo, estava apenas entretido a compor e a tocar mentalmente. O gesto era mais forte que tudo: se lhe pediam para tirar uma fotografia, começava logo a dedilhar. Seria injusto chamar-lhe o maior guitarrista de sempre, como lembra Wellenkamp: «Pela sua natureza de homem bom e de homem grande, deixou marcas em todas as pessoas» e que vão além do som da sua guitarra. Indiferente aos aplausos, devolvia todos os elogios e, como que envergonhado do talento, terminava os espectáculos a falar dos seus enganos.

Concentrava-se só no que considerava importante. Luísa Amaro não foi só acompanhante: «Costumo dizer a brincar que, rapidamente, passei a ser mãe de Paredes, porque ele era um menino grande». A distracção era congénita, mas nunca foi alheado da realidade. Era um homem com uma «grande preocupação pela condição humana, pelas pessoas, e era um homem com uma grande consciência cívica», reforça Wellenkamp. Atento às contradições sociais e ideológicas, Letria conta também que, noutros aspectos, era naturalmente distraído. «O Paredes cair no fosso da orquestra, perder-se nos bastidores ou não dar com a cadeira eram coisas que aconteciam. Tal como estar connosco e cinco minutos depois já não estar porque se enganou ao sair da casa de banho. Íamos dar com ele numa praceta a um quilómetro dali».

Carlos Paredes com Luísa Amaro, companheira na vida e na música, no Portugal dos Pequeninos.

Tratava toda gente por «amigo» e a dificuldade em assumir divergências levava-o a usar «pequenos truques e uma manha quase infantil de um menino que nunca cresceu totalmente». Nunca arranjava conflitos; dizia sempre «deixa lá isso, que não tem importância». Paredes era homem de grande carácter, «caloroso, muito afectivo e que gostava de conversar», sublinha David Ferreira. Estilista da língua, tinha uma sabedoria profunda: «se estivesse em Moçambique, falava com um escritor. Ia à Finlândia e improvisava sobre esculturas de vidro. Para isto tem de se ser muito culto, perceber que a cultura é qualquer coisa de universal que nos une a todos», relata Luísa Amaro. Gostava de falar de tudo menos de si. «Enfrentou uma vida pública, porque queria ensinar aos outros a beleza da guitarra portuguesa, a sua originalidade como instrumento, a sua história como instrumento popular e a capacidade emotiva do seu som para os portugueses e para todos os povos do mundo», justifica Pedro Ayres.

Carlos Paredes põe a guitarra de lado quando adoece. Durante os onze anos que passou acamado no Lar, pouco falou. O sentido de revolta foi dando lugar à resignação a uma doença que o apanhou cedo demais. Cedeu com um sorriso: «A partir de certa altura, interiorizou a noção de missão cumprida e isso dá uma tranquilidade à pessoa», conclui Luísa Amaro. Quando o mundo o aguardava, o som da sua guitarra calara-se. Carlos Paredes partiu aos 79 anos de vida.

Azulejo de homenagem a Carlos Paredes, por Júlio Pomar

Umas linhas para Carlos Paredes
(Fado Triste)

Não sei quem teve a ideia
Se foi ele ou o fotógrafo ou criativo de serviço
Mas esta imagem sempre me deixou
Não saudades ganas
De minar de vez as rimas fatalistas

Para mim nada há que mais se pareça
Com o país a teimar em sorrir
Que este retrato a la minute da situação do artista
Português dum certo tempo e condição
Os cravos na mão e os pés na poça
Perdão no mar

Ares e mares atravessei uma vez com Carlos Paredes
E assim o conheci num acaso de viagem
Poucas palavras cruzámos, não deu tempo
Em outras artes trocávamos as teimas
Até ao momento em que ele não pôde mais
Suster nas mãos umas coxas de guitarra.

Julio Pomar

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